Autor: ZéKarias - José Caria Luís
Ora uma muito boa tarde e um muitíssimo obrigado para todos os que tiveram a amabilidade de estarem presentes nesta sessão.
Sou eu, então, o ZÉKARIAS, por pseudónimo, e José Caria Luís por nome próprio. Nasci, aqui ao lado, na vizinha freguesia de Vale da Pinta, no, já longínquo, ano de 1944; sou casado com a Luísa, também ela de Vale da Pinta; tenho um filho e uma filha (ele cartaxeiro e ela valedapintense); tenho três netas e um genro, todos da cidade do Porto, onde resido há cerca de 27 anos.
Os meus agradecimentos para os meus antecessores, pelas simpáticas palavras com que me obsequiaram, mas, sem falsas modéstias, cá no meu subconsciente, julgo que não valho assim tanto.
Pela disponibilidade e o empenho com que trataram do acolhimento deste evento, colaborando na cedência deste espaço cultural e seu equipamento, quero endereçar os meus sinceros agradecimentos à Câmara Municipal do Cartaxo que, desde a primeira hora, mostrou total disponibilidade na cedência do Centro Cultural para que esta cerimónia fosse uma realidade. A este propósito, solicito que este meu reconhecimento seja transmitido ao Sr. Presidente, dr. Pedro Ribeiro.
Uma palavra de reconhecimento e apreço ao meu amigo Paulo Vila, o pioneiro, a quem devo o primeiro contacto com aquelas entidades camarárias.
A minha convidada tinha que ser mesmo a minha conterrânea Elvira Melo. Sendo mais nova que eu, mas, como se diz na aldeia, pertencendo à mesma bugalha, ainda chegou a ser minha contemporânea na Primária. Tal como eu, acompanhou e participou em muitos daqueles bailaricos dos anos 50, abrilhantados pelo denominado Jazz de Vale da Pinta, do qual os nossos pais faziam parte, sendo que o seu pai, Carlos dos Santos (o Carlos da Elvira) era o mentor do grupo privativo. Por força do destino seguimos caminhos diferentes: a Elvira, primeiro em V. F. de Xira, depois em Lisboa. Eu, por cá fiquei. No entanto, à distância, sempre fui tomando conhecimento da sua evolução académica e profissional. A par da Elvira, também o meu amigo e conterrâneo José Manuel Patrício fará a leitura detalhada de um capítulo do Livro.
Fiquei por cá fiquei, mas somente até aos 24 anos, idade com a qual desertei, até hoje. Todavia, não foi uma deserção definitiva, já que, ao longo dos anos em que tenho estado fora, sempre que posso, nunca deixei de visitar família e amigos. No mínimo, quatro vezes ao ano; isto, porque gosto muito da minha terra.
Ora o propósito que nos reúne aqui hoje, é o de melhor dar a conhecer e divulgar o livro que acaba de ser editado. Através dos seus textos e dos episódios nele contidos, podemos contemplar o reflexo de vidas entre as décadas de 20 e 60 do século passado.A minha convidada tinha que ser mesmo a minha conterrânea Elvira Melo. Sendo mais nova que eu, mas, como se diz na aldeia, pertencendo à mesma bugalha, ainda chegou a ser minha contemporânea na Primária. Tal como eu, acompanhou e participou em muitos daqueles bailaricos dos anos 50, abrilhantados pelo denominado Jazz de Vale da Pinta, do qual os nossos pais faziam parte, sendo que o seu pai, Carlos dos Santos (o Carlos da Elvira) era o mentor do grupo privativo. Por força do destino seguimos caminhos diferentes: a Elvira, primeiro em V. F. de Xira, depois em Lisboa. Eu, por cá fiquei. No entanto, à distância, sempre fui tomando conhecimento da sua evolução académica e profissional. A par da Elvira, também o meu amigo e conterrâneo José Manuel Patrício fará a leitura detalhada de um capítulo do Livro.
Fiquei por cá fiquei, mas somente até aos 24 anos, idade com a qual desertei, até hoje. Todavia, não foi uma deserção definitiva, já que, ao longo dos anos em que tenho estado fora, sempre que posso, nunca deixei de visitar família e amigos. No mínimo, quatro vezes ao ano; isto, porque gosto muito da minha terra.
A presente Obra surgiu com base num projeto inicial, ao qual foi dado um novo, mas similar título, sinopse, alguma ampliação, revisão e nova Capa. Esta, selecionada pela Chiado Editora, acaba de ser editada em livro, com o título
com o título "DEGRAUS E MARCOS DA VIDA".
De facto, correspondendo ao convite que me foi formulado pela editora, anuí ao dito, tendo apresentando este meu trabalho como concorrente. Depois, após análise literária e comercial, recebi a informação de que aquele fora selecionado e aprovado. Seguiu-se a natural proposta, contrato e a consequente edição e comercialização. Esta será feita, numa primeira fase, a nível nacional. Contudo, caso o volume de vendas da sua tiragem, nesta edição, alcance um número significativo que o justifique, será a mesma traduzida e editada nas línguas castelhana e inglesa. Na primeira, através da Chiado Editorial, e na segunda, pela Chiado Publishing.
A presente Obra versa, predominantemente, o modus vivendi de uma comunidade laboriosa e algo sã que, tendo por núcleo o concelho do Cartaxo, se desdobrou em muitas e distintas áreas. Desde a componente social, passando pelas artes e ofícios; vida académica e o desporto, tudo é abordado neste Volume. Também aqui são referenciadas as caminhadas noturnas, de bicicleta, ou por meio de uma carripana do Vinagre, para a E.I.C. de Santarém. No geral, eram meus companheiros: o Rogério Raposo, o Zé Florindo, o Ludgero, o Tibério, o Jorge Xavier, a Lurdes Pina, e os malogrados, Zé dos Amiais, Humberto e Zé Otávio. Também o Rui Fonseca foi nosso contemporâneo, só que ele fazia uso da sua Famel para as deslocações.
Um tema a que não podia deixar de aludir, era à eterna moda das cunhas que se tentava meter a pessoas algo importantes, no sentido de vir a conseguir certos objetivos, para arranjar certos empregos, como, por exemplo, aprendiz de serralheiro, eletricista, balconista, etc. A diferença estava mesmo no calibre das cunhas e no ramo onde as mesmas se aplicavam. Eu, por exemplo, como primeira prioridade, queria ser mecânico, a segunda, serralheiro civil ou, em alternativa, balconista, mas, na primeira, nem mesmo com um pedido ao então Presidente da Câmara, Francisco Freire, fui bafejado pela sorte. Nas outras, com outras figuras, idem, aspas.
Como comigo as cunhas não funcionavam, tive que procurar trabalho, dentro de um outro ramo. Numa área em que, para conseguir emprego, não eram precisas cunhas; bastava estar vivo. Vivo, são, e, de preferência, exibir bom "cabedal" perante o olhar desconfiado do patrão, já que, para aguentar com aquelas pesadas gamelas de argamassa às costas, ou com os enormes pedregulhos, não se podia ser raquítico de todo. E isto sem contar com as sovas com que os pedreiros nos mimavam, com alguma frequência. Para isso bastava que o servente se tivesse equivocado no recado, e trazido do Picoto ou do Serrazina, apenas 1/2 litro de vinho, em vez dos 7,5dl recomendados pelo mestre. Era surra pela certa. Foi por tudo isto, quer tenha sido por falta de cunhas credíveis, ou por simples masoquismo, que me vi relegado para a indústria da construção civil.
Este livro relata e espelha épocas pejadas de grandes dificuldades. Épocas em que em muitos lares portugueses, pouco mais havia do que um prato de sopa sobre a mesa e um naco de pão a servir de conduto. Épocas em que muita gente, pensando libertar-se, por omissão, das agruras da vida, se refugiava no vinho. Caminhando ao longo deste livro, e a páginas tantas, dá para perceber que o néctar do Deus Baco era sorvido em turbilhão; não tanto em goles mas em catadupa. O bom vinho era tido como um bálsamo que inebriava a alma daquela gente. Muitos deles eram considerados como sendo grandes homens só pelo facto de aguentarem muito vinho. Não me esqueço nunca, nos tempos em que era miúdo, de assistir em plena Praça dos Homens, em Vale da Pinta, às conversas havidas entre o agricultor e o cavador assalariado. O primeiro, no sentido de convidar o outro para trabalhar para si, oferecia um determinado salário; o cavador, mais que o salário, procurava saber se o pagamento era complementado com vinho. Se sim, talvez tivéssemos acordo. Porque não bastava haver vinho adicionado à jorna, não: tinha que ser vinho, mas do bom. De contrário, com zurrapa, tinha que ser o agricultor a cavar o seu próprio torrão, porque, de assalariado nem pó. Isto, porque a boa ou má fama do vinho era passada de boca em boca, e como em terra pequena, tudo se sabia...
Enquanto que o leitor menos avisado, cuja vivência tenha tido a grande cidade como cenário, possa estranhar o facto de muitos episódios, aqui narrados, se terem desenrolado à força de vinho, ao leitor ribatejano isso passa completamente ao lado. A não existência de vinho é que seria para admirar. E bem! Se não forem os habitantes do concelho a fazer a apologia do tinto carrascão do Cartaxo, quem o fará?
É verdade que, ora se viveu, ora se vegetou. Eu, apesar de tudo, ainda cheguei a viver; por isso ainda cá estou hoje.
Estou cá, mas estou ativo. Não me deixei ficar paralisado pela natural inércia da aposentação. Continuo com a escrita, num outro Volume. No firme propósito de dar continuidade ao atual projeto, vou narrando a segunda parte de estórias de vidas em comunidade, que, para bem de todos, não podem ficar no esquecimento. O pior que pode acontecer no futuro, à cultura de um povo, é negligenciar a história, o seu passado. Será, por isso, conveniente que as novas gerações se vão documentando, tomando conhecimento do que de bom e mau se foi passando nas vidas dos seus antecessores, as quais, acopladas às suas, poderão transmitir inquestionáveis valores aos seus vindouros. Pelo menos, poder-se-á evitar alguns erros. As novas gerações, como as 3ª, 4ª , 5ª... e por aí fora, têm o dever de, através deste tipo de narrativas, tomar conhecimento do Mundo que as antecedeu. É delas essa responsabilidade.
Esmiuçando o teor deste livro, damo-nos conta de que o mesmo não se cinge a uma autobiografia do seu Autor. Ele é muito mais abrangente. É bem verdade que ele participa, por vezes, como figura central, em alguns dos episódios ali relatados, mas há cenas tais, protagonizadas por "atores" tais, que, muitos deles, já cá não estão para contar como foi. Direta ou indiretamente foi-me legada essa missão. E se não o foi, apropriei-me eu dela! Longe estariam essas pessoas de pensar que, um dia, aquele rapazito reguila, que eles bem conheceram, e ao qual chegaram a mimosear com uns tabefes, ainda se ia aventurar a passar para o papel as diabruras que todos faziam. Se isso fosse possível, o que esses finados não dariam para estarem de volta e tomarem conhecimento da existência de um livro que relata e testemunha as suas passagens cá por este Mundo!... Muitos deles, a maior parte, não poderia dar mais do que a própria vida, numa espécie de vem e torna a ir, já que, enquanto por cá andaram, sempre viveram despojados de bens primários, quanto mais secundários...
Mas terá sido apenas pelo que acabo de dizer, que escrevi este livro, e já tenho outro na calha? É claro que não. Eu, se bem me conheço, não terei sido nunca um obcecado, mas sempre fui um inconformado. Esta talvez tenha sido a principal razão pela qual me atrevi a relatar os testemunhos que, ao longo dos anos, fui vivendo e recolhendo. É certo que, por causas diversas, nunca realizei algumas das veleidades sonhadas, mas no que concerne à luta que travei para conseguir certos objetivos, ela foi tenaz.
Até podia, e devia, ter feito mais e melhor. Pode-se ir sempre mais além, mas, tendo em conta os tempos difíceis por que passei, e pelo facto de não ter baixado os braços, acabei por me sentir uma pessoa medianamente realizada.
Se tudo correr como planeei, é bem possível que nos venhamos a encontrar na apresentação de um outro Volume, com um outro título, sem, no entanto fugir à matriz do presente. Pelo menos, será um sinal de que estaremos vivos.
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